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Volumen 1, mero 1 - Año 2023
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Adicção Digital em Adolescentes
Digital Addiction in Adolescents
João Pedro Nascimento Ferreira
joaonferreira@tutamail.com
https://orcid.org/0009-0007-9907-3515
Universidade Federal de Roraima
Brasil
Artículo recibido: 17/01/2023
Aceptado para publicación: 27/02/2023
Conflictos de Intereses: Ninguno que declarar
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RESUMO
O presente artigo de revisão tem como objetivo analisar e sistematizar a produção
científica recente sobre a adicção digital em adolescentes, com o propósito de identificar
seus principais enfoques conceituais, fatores de risco e proteção, consequências
psicossociais e acadêmicas, bem como estratégias de prevenção e intervenção propostas
na literatura especializada. Para isso, foi realizada uma revisão sistemática da literatura
seguindo os lineamentos da metodologia PRISMA, que incluiu a busca, seleção e análise
de artigos científicos publicados entre 2010 e 2023 em bases de dados acadêmicas
internacionais e regionais. A análise dos dados foi conduzida por meio de uma abordagem
qualitativa e análise temática, organizando os achados em categorias analíticas. Os
resultados evidenciam que a adicção digital em adolescentes é um fenômeno
multidimensional, influenciado por fatores individuais, familiares, educacionais e
socioculturais, e associado a consequências negativas para o bem-estar psicológico, as
relações sociais e o desempenho acadêmico. Destaca-se, ainda, a relevância de estratégias
preventivas integradas, centradas na alfabetização digital, na regulação emocional e na
promoção do bem-estar digital. Conclui-se que é necessário adotar abordagens
educacionais e psicossociais baseadas em evidências para promover um uso saudável da
tecnologia na adolescência.
Palavras-chave: adicção digital; adolescentes; uso problemático de tecnologias
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ABSTRACT
This review article aims to analyze and systematize recent scientific production
on digital addiction in adolescents, with the purpose of identifying its main conceptual
approaches, risk and protective factors, psychosocial and academic consequences, as well
as prevention and intervention strategies proposed in the specialized literature. To this
end, a systematic literature review was conducted following PRISMA guidelines, which
included the search, selection, and analysis of scientific articles published between 2010
and 2023 in international and regional academic databases. Data analysis was conducted
through a qualitative approach and thematic analysis, organizing the findings into
analytical categories. The results show that digital addiction in adolescents is a
multidimensional phenomenon, influenced by individual, family, educational, and
sociocultural factors, and associated with negative consequences for psychological well-
being, social relationships, and academic performance. The relevance of integrated
preventive strategies centered on digital literacy, emotional regulation, and the promotion
of digital well-being is also highlighted. It is concluded that evidence-based educational
and psychosocial approaches are necessary to promote healthy technology use during
adolescence.
Keywords: digital addiction; adolescents; problematic technology use
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INTRODUÇÃO
A adicção digital em adolescentes consolidou-se, nas últimas duas décadas, como um
fenômeno de crescente interesse acadêmico, social e sanitário, no contexto da expansão
acelerada das tecnologias da informação e da comunicação e da massificação do acesso a
dispositivos digitais e plataformas online. Esse fenômeno está relacionado ao uso
problemático, excessivo ou descontrolado de tecnologias digitais, como smartphones,
redes sociais, videogames online e plataformas de streaming, que interfere
significativamente no funcionamento psicológico, social, acadêmico e familiar dos
adolescentes (Kuss & Lopez-Fernandez, 2016; Montag & Walla, 2016). A adolescência
constitui uma etapa do desenvolvimento particularmente vulnerável a esse tipo de
comportamento, devido às mudanças neurobiológicas, emocionais e sociais próprias
desse período, bem como à busca por identidade, pertencimento e reconhecimento social
(Steinberg, 2014; Blakemore & Mills, 2014).
Do ponto de vista conceitual, a adicção digital tem sido abordada sob diversas
denominações, como “adicção à Internet”, “uso problemático da Internet”, “dependência
tecnológica” ou “transtornos por uso de videogames”, o que reflete a heterogeneidade
teórica existente na área (Young, 1998; Kardefelt-Winther et al., 2017). No entanto, a
literatura concorda em apontar que esses comportamentos compartilham características
centrais das adições comportamentais, incluindo perda de controle, tolerância, abstinência
psicológica, interferência funcional e persistência do comportamento apesar de suas
consequências negativas (Grant et al., 2010; American Psychiatric Association, 2013).
Nesse sentido, a inclusão do transtorno por uso de videogames no DSM-5 como condição
para estudo contribuiu para legitimar a análise científica dessas problemáticas em
populações adolescentes (American Psychiatric Association, 2013).
A adolescência representa um período crítico para o desenvolvimento do autocontrole, da
regulação emocional e da tomada de decisões, processos que dependem, em grande
medida, da maturação progressiva do córtex pré-frontal, o qual continua a se desenvolver
até o início da vida adulta (Casey et al., 2011; Steinberg, 2014). Essa imaturidade
neurobiológica, combinada com uma maior sensibilidade às recompensas sociais e à
gratificação imediata, aumenta a suscetibilidade dos adolescentes a desenvolver padrões
de uso compulsivo de tecnologias digitais (Somerville & Casey, 2010; Montag et al.,
2019). As plataformas digitais, projetadas sob princípios da economia da atenção,
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reforçam esse risco ao oferecer estímulos constantes, recompensas variáveis e feedback
social imediato (Alter, 2017).
Diversos modelos teóricos têm buscado explicar o desenvolvimento da adicção digital
em adolescentes. Entre eles, o modelo cognitivo-comportamental propõe que o uso
problemático de tecnologias emerge como uma estratégia de enfrentamento disfuncional
frente a emoções negativas, estresse acadêmico ou dificuldades interpessoais (Davis,
2001; Caplan, 2010). Nessa perspectiva, a tecnologia atua como um regulador emocional
externo que proporciona alívio temporário, mas reforça o ciclo adictivo ao impedir o
desenvolvimento de estratégias adaptativas de enfrentamento (Kardefelt-Winther, 2014).
Além disso, o modelo biopsicossocial integra fatores individuais, familiares e
socioculturais para explicar a complexidade do fenômeno (Griffiths, 2005).
No âmbito empírico, numerosos estudos têm documentado uma associação significativa
entre a adicção digital e diversos indicadores de mal-estar psicológico em adolescentes,
como ansiedade, depressão, estresse percebido e baixa autoestima (Elhai et al., 2017;
Marino et al., 2018). As evidências sugerem que adolescentes com maior dependência
digital apresentam maiores dificuldades na regulação emocional e maior tendência à
ruminação e à evitação experiencial (Hormes et al., 2014; Billieux et al., 2015). Essas
relações tendem a ser bidirecionais, uma vez que o mal-estar psicológico pode tanto
anteceder quanto resultar do uso problemático de tecnologias digitais (Odgers & Jensen,
2020).
A adicção às redes sociais constitui uma das manifestações mais estudadas da adicção
digital em adolescentes, devido à centralidade que essas plataformas ocupam na
construção da identidade e das relações sociais nessa fase da vida (Valkenburg & Peter,
2011; Nesi et al., 2018). O uso intensivo de redes sociais tem sido associado à comparação
social negativa, à dependência de validação externa e à exposição a dinâmicas de
aprovação quantificada, como “curtidas” e número de seguidores, que podem afetar o
autoconceito e a autoestima dos adolescentes (Verduyn et al., 2017; Kross et al., 2013).
Paralelamente, a adicção a videogames online tem sido amplamente analisada,
especialmente em adolescentes do sexo masculino, embora a diferença de gênero tenha
diminuído nos últimos anos (Gentile et al., 2017; Stevens et al., 2021). Os videogames
multiplayer massivos oferecem experiências imersivas, sistemas de recompensas
progressivas e comunidades virtuais que podem satisfazer necessidades psicológicas
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básicas de competência, autonomia e pertencimento, conforme a teoria da
autodeterminação (Ryan et al., 2006; Przybylski et al., 2010). No entanto, quando essas
necessidades são satisfeitas exclusivamente no ambiente digital, aumenta o risco de
dependência e isolamento social (Kuss et al., 2012).
O impacto da adicção digital no desempenho acadêmico de adolescentes tem sido
amplamente documentado, evidenciando uma associação negativa entre o uso
problemático de tecnologias e variáveis como concentração, gestão do tempo,
cumprimento de tarefas e rendimento escolar (Rosen et al., 2013; Lepp et al., 2014). O
uso excessivo de dispositivos móveis durante o estudo ou no ambiente escolar favorece a
multitarefa digital, a qual se mostra prejudicial aos processos de atenção sustentada e
memória de trabalho (Ophir et al., 2009; Uncapher & Wagner, 2018).
No âmbito familiar, a adicção digital em adolescentes costuma estar associada a
dinâmicas parentais caracterizadas por baixa supervisão, comunicação deficiente ou
estilos educativos inconsistentes (Lauricella et al., 2015; Shi et al., 2017). As evidências
indicam que o acompanhamento parental ativo, o estabelecimento de limites claros e a
modelagem de um uso saudável da tecnologia atuam como fatores protetores frente ao
desenvolvimento de comportamentos adictivos digitais (Livingstone & Helsper, 2008;
Wartberg et al., 2014). Em contraste, contextos familiares marcados por conflito,
negligência emocional ou superproteção podem aumentar a vulnerabilidade dos
adolescentes (Yen et al., 2007).
Sob uma perspectiva social e cultural, a normalização do uso intensivo de tecnologias
digitais dificulta a identificação precoce de comportamentos problemáticos, uma vez que
o uso constante de dispositivos é percebido como parte inevitável da vida cotidiana e do
processo educativo (Odgers & Robb, 2020). Essa normalização representa desafios
significativos para a prevenção, pois a linha entre uso adaptativo e uso problemático é
difusa e depende de fatores contextuais, individuais e funcionais (Kardefelt-Winther et
al., 2017).
No que diz respeito às implicações educacionais, diversos autores destacam a necessidade
de integrar a educação digital crítica e a alfabetização midiática como estratégias
preventivas frente à adicção digital em adolescentes (Buckingham, 2015; Livingstone et
al., 2018). Essas intervenções visam promover um uso consciente, autorregulado e ético
da tecnologia, fortalecendo competências como autorreflexão, gestão do tempo e
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regulação emocional em ambientes digitais (Hobbs, 2017). A escola, em articulação com
a família, desempenha um papel fundamental na promoção de hábitos digitais saudáveis.
No campo da intervenção psicológica, abordagens cognitivo-comportamentais têm
demonstrado eficácia na redução do uso problemático de tecnologias digitais em
adolescentes, por meio do trabalho com pensamentos disfuncionais, habilidades de
enfrentamento e regulação emocional (King et al., 2017; Young, 2011). Além disso,
intervenções baseadas em mindfulness e no fortalecimento da autodeterminação têm
emergido como alternativas promissoras para promover uma relação mais equilibrada
com a tecnologia (Li et al., 2018; Garland et al., 2019).
A literatura recente enfatiza a necessidade de abordar a adicção digital em adolescentes a
partir de uma perspectiva integral, que reconheça tanto os riscos quanto as oportunidades
associadas ao uso de tecnologias digitais (Odgers & Jensen, 2020; Orben, 2020). Em vez
de abordagens proibicionistas, propõe-se avançar para modelos preventivos e educativos
que promovam o bem-estar digital, o desenvolvimento saudável e a participação crítica
dos adolescentes na cultura digital contemporânea (Livingstone et al., 2018; Twenge et
al., 2019).
Contexto e Relevância do Estudo
Nas últimas décadas, a expansão acelerada das tecnologias digitais transformou
profundamente as dinâmicas sociais, educacionais e culturais, particularmente na
população adolescente. O acesso precoce e quase permanente a dispositivos como
smartphones, tablets e computadores, bem como a plataformas digitais e redes sociais,
configurou novos modos de interação, aprendizagem e construção da identidade juvenil
(Livingstone et al., 2018; Odgers & Jensen, 2020). Nesse contexto, o uso intensivo de
tecnologias digitais tornou-se um fenômeno normativo, o que dificulta a distinção entre
práticas adaptativas e padrões de uso problemático ou adictivo (Kardefelt-Winther et al.,
2017).
A adolescência constitui uma etapa crítica do desenvolvimento humano, caracterizada por
mudanças neurobiológicas, emocionais e sociais que aumentam a vulnerabilidade a
comportamentos de risco e dificuldades na autorregulação (Steinberg, 2014; Blakemore
& Mills, 2014). Diversos estudos indicam que essas características evolutivas,
combinadas com ambientes digitais projetados para maximizar a atenção e a gratificação
imediata, favorecem o surgimento de comportamentos compulsivos relacionados ao uso
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de tecnologias digitais (Alter, 2017; Montag et al., 2019). Nesse sentido, a adicção digital
em adolescentes emerge como uma problemática relevante para a saúde mental, o bem-
estar psicossocial e o desempenho acadêmico.
A relevância do estudo da adicção digital em adolescentes também reside em sua
associação com múltiplas consequências negativas, como sintomas de ansiedade e
depressão, distúrbios do sono, dificuldades nas relações interpessoais e baixo rendimento
acadêmico (Elhai et al., 2017; Twenge et al., 2019). Além disso, o uso problemático de
tecnologias digitais tem sido associado a processos de isolamento social, dependência
emocional da validação virtual e deterioração de habilidades socioemocionais essenciais
(Kuss & Lopez-Fernandez, 2016; Nesi et al., 2018).
Sob uma perspectiva educacional e social, abordar essa problemática é fundamental para
o desenvolvimento de estratégias preventivas, intervenções psicoeducativas e políticas
públicas voltadas ao bem-estar digital dos adolescentes (Livingstone et al., 2018; Odgers
& Robb, 2020). Assim, o presente estudo de revisão ganha relevância ao sistematizar a
produção científica recente sobre a adicção digital em adolescentes, contribuindo para
uma compreensão abrangente do fenômeno e oferecendo subsídios teóricos e empíricos
para a tomada de decisões nos âmbitos educacional, familiar e de saúde.
Fundamentação Teórica
A adicção digital em adolescentes insere-se no marco mais amplo das adições
comportamentais, caracterizadas pela repetição persistente de um comportamento
gratificante apesar de suas consequências negativas e pela perda de controle sobre esse
comportamento (Grant et al., 2010; Griffiths, 2005). Nessa perspectiva, o uso
problemático de tecnologias digitais compartilha elementos centrais com outras adições
não relacionadas a substâncias, como tolerância, abstinência psicológica, interferência
funcional e compulsão (American Psychiatric Association, 2013).
Um dos modelos teóricos mais utilizados para explicar a adicção digital é o modelo
cognitivo-comportamental do uso problemático da Internet, proposto por Davis (2001),
que sugere que fatores cognitivos disfuncionais, como crenças irracionais e expectativas
negativas sobre a vida offline, interagem com reforçadores tecnológicos para manter o
comportamento adictivo. Esse modelo foi ampliado por Caplan (2010), que incorpora a
preferência pela interação social online e a regulação emocional deficiente como
elementos-chave no desenvolvimento do uso problemático.
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A partir de uma abordagem biopsicossocial, a adicção digital é compreendida como
resultado da interação entre fatores individuais, contextuais e culturais (Griffiths, 2005;
Kuss et al., 2014). Entre os fatores individuais destacam-se impulsividade, baixa
autoestima, busca por sensações e dificuldades na regulação emocional, enquanto os
fatores contextuais incluem o clima familiar, o acompanhamento parental e o ambiente
escolar (Yen et al., 2007; Wartberg et al., 2014). No nível sociocultural, a onipresença da
tecnologia e a normalização do uso intensivo atuam como facilitadores do problema
(Odgers & Jensen, 2020).
A teoria da autodeterminação tem sido amplamente utilizada para explicar a atratividade
dos ambientes digitais para adolescentes, ao indicar que plataformas como redes sociais
e videogames satisfazem necessidades psicológicas básicas de autonomia, competência e
pertencimento (Ryan et al., 2006; Przybylski et al., 2010). No entanto, quando essas
necessidades são atendidas predominantemente no ambiente virtual, aumenta o risco de
dependência e desconexão do contexto offline (Kuss et al., 2012).
A partir da neurociência do desenvolvimento, destaca-se que a imaturidade do córtex pré-
frontal na adolescência limita a capacidade de autocontrole e favorece a busca por
recompensas imediatas, aumentando a vulnerabilidade a estímulos digitais altamente
reforçadores (Casey et al., 2011; Somerville & Casey, 2010). Essa base neurobiológica
sustenta a compreensão da adicção digital como um fenômeno particularmente relevante
nessa etapa do ciclo de vida.
Problemática
A adicção digital em adolescentes constitui uma problemática complexa e
multidimensional que apresenta desafios significativos para a saúde mental, a educação e
a convivência social. Um dos principais problemas reside na dificuldade de delimitar o
limiar entre um uso intensivo, porém funcional, da tecnologia e um uso verdadeiramente
problemático ou adictivo, especialmente em um contexto em que o uso de dispositivos
digitais é incentivado e exigido nos âmbitos educacional e social (Kardefelt-Winther et
al., 2017; Livingstone et al., 2018).
No nível psicológico, diversos estudos evidenciam uma relação consistente entre a
adicção digital e o aumento de sintomas de ansiedade, depressão e estresse em
adolescentes (Elhai et al., 2017; Marino et al., 2018). Essas associações tendem a ser
bidirecionais, já que o mal-estar emocional pode levar ao uso compulsivo de tecnologias
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como estratégia de enfrentamento, ao mesmo tempo em que esse uso intensifica os
sintomas psicológicos (Hormes et al., 2014; Odgers & Jensen, 2020). Essa dinâmica
circular dificulta a intervenção precoce e favorece a cronificação do problema.
No âmbito educacional, a problemática se manifesta por meio da diminuição da atenção
sustentada, do comprometimento dos hábitos de estudo e do baixo desempenho
acadêmico, especialmente quando o uso de dispositivos móveis interfere nas atividades
escolares e no descanso noturno (Rosen et al., 2013; Lepp et al., 2014). A multitarefa
digital, comum entre adolescentes, demonstrou efeitos negativos sobre os processos
cognitivos envolvidos na aprendizagem profunda (Ophir et al., 2009; Uncapher &
Wagner, 2018).
Do ponto de vista familiar, a adicção digital pode gerar conflitos interpessoais,
deterioração da comunicação e dificuldades no estabelecimento de normas e limites,
especialmente quando os cuidadores não possuem ferramentas adequadas para
acompanhar o uso tecnológico dos adolescentes (Lauricella et al., 2015; Shi et al., 2017).
A lacuna digital geracional pode dificultar a identificação precoce de comportamentos
problemáticos e atrasar a busca por ajuda especializada.
A problemática é agravada pela escassez de programas preventivos sistemáticos e pela
limitada formação de docentes e profissionais em bem-estar digital adolescente
(Buckingham, 2015; Hobbs, 2017). Essa situação evidencia a necessidade de pesquisas
que integrem abordagens teóricas e empíricas para orientar intervenções educacionais,
familiares e comunitárias baseadas em evidências científicas.
Objetivos e Perguntas de Pesquisa
O objetivo geral do presente estudo de revisão é analisar e sistematizar a produção
científica recente sobre a adicção digital em adolescentes, com o propósito de identificar
seus principais enfoques teóricos, fatores associados, consequências psicossociais e
educacionais, bem como as estratégias de prevenção e intervenção propostas na literatura
especializada (Kuss & Lopez-Fernandez, 2016; Odgers & Jensen, 2020).
Como objetivos específicos, propõe-se:
a) descrever as principais conceitualizações e modelos teóricos utilizados para
abordar a adicção digital na adolescência;
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b) identificar os fatores individuais, familiares e contextuais associados ao
desenvolvimento do uso problemático de tecnologias digitais;
c) analisar as principais consequências psicológicas, sociais e acadêmicas
vinculadas a essa problemática;
d) examinar as propostas de intervenção e prevenção voltadas ao bem-estar digital
dos adolescentes (Griffiths, 2005; Livingstone et al., 2018).
A partir desses objetivos, o estudo é orientado pelas seguintes perguntas de pesquisa:
Como se conceitua a adicção digital em adolescentes na literatura científica recente?
Quais são os fatores de risco e proteção identificados?
Quais efeitos estão associados ao uso problemático de tecnologias digitais nessa etapa do
desenvolvimento?
Quais estratégias educacionais e psicossociais são propostas para seu enfrentamento?
(Kardefelt-Winther et al., 2017; Twenge et al., 2019).
METODOLOGIA
O presente estudo foi desenvolvido sob um desenho de revisão sistemática da literatura,
seguindo as diretrizes estabelecidas pela metodologia PRISMA (Preferred Reporting
Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), com o objetivo de garantir a
transparência, o rigor metodológico e a replicabilidade do processo de revisão (Page et
al., 2021; Moher et al., 2009). Esse enfoque é especialmente pertinente para sintetizar e
analisar criticamente a evidência científica disponível sobre a adicção digital em
adolescentes, um fenômeno complexo e multidimensional abordado a partir de diversas
disciplinas.
Desenho do estudo
Adotou-se uma abordagem qualitativa de análise documental, orientada à identificação,
seleção, avaliação e síntese de pesquisas empíricas e teóricas relevantes sobre a temática.
A revisão concentrou-se em estudos publicados em periódicos científicos revisados por
pares, com o objetivo de assegurar a qualidade e validade das fontes incluídas (Snyder,
2019). O processo metodológico foi estruturado em quatro fases principais, conforme o
diagrama PRISMA: identificação, triagem, elegibilidade e inclusão (Page et al., 2021).
Estratégia de busca bibliográfica
A busca sistemática da literatura foi realizada em bases de dados acadêmicas
internacionais e regionais de reconhecido prestígio, entre elas Scopus, Web of Science,
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PubMed, ERIC, PsycINFO e SciELO, selecionadas por sua cobertura nas áreas de
ciências sociais, psicologia e educação (Kitchenham & Charters, 2007). O período de
publicação considerado abrangeu de 2010 a 2023, com o objetivo de incluir pesquisas
recentes e relevantes que reflitam a evolução do fenômeno no contexto digital
contemporâneo.
Foram utilizadas combinações de palavras-chave e descritores em espanhol e inglês,
empregando operadores booleanos AND e OR, tais como: adicción digital, uso
problemático de Internet, adicción a redes sociales, adicción a videojuegos, adolescentes,
digital addiction, problematic internet use, social media addiction e adolescents. A
estratégia de busca foi adaptada aos critérios específicos de cada base de dados para
maximizar a recuperação de estudos pertinentes (Liberati et al., 2009).
Critérios de inclusão e exclusão
Os critérios de inclusão estabelecidos foram: a) estudos empíricos ou teóricos revisados
por pares; b) pesquisas centradas na população adolescente (aproximadamente entre 10 e
19 anos); c) estudos que abordassem a adicção digital ou o uso problemático de
tecnologias digitais; d) publicações em espanhol ou inglês; e) artigos com acesso ao texto
completo. Por sua vez, foram excluídos: a) estudos focados exclusivamente na população
adulta; b) publicações não revisadas por pares, como editoriais, opiniões ou resumos de
congressos; c) pesquisas que não abordassem explicitamente a problemática da adicção
digital; e d) duplicatas identificadas durante o processo de triagem (Moher et al., 2009;
Page et al., 2021).
Processo de seleção dos estudos
O processo de seleção foi realizado em várias etapas. Primeiramente, foram eliminados
os registros duplicados. Em seguida, foi realizada uma revisão inicial de títulos e resumos
para descartar estudos que não atendiam aos critérios de inclusão. Em uma terceira etapa,
foram avaliados os textos completos dos artigos potencialmente elegíveis, definindo-se,
por fim, o corpus definitivo de estudos incluídos na revisão. Esse procedimento permitiu
assegurar a coerência temática e metodológica do material analisado, conforme as
recomendações do PRISMA (Page et al., 2021).
Análise da informação e categorias de análise
A análise dos dados foi realizada por meio de análise temática com enfoque qualitativo,
o que permitiu identificar padrões, convergências e divergências nos achados dos estudos
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incluídos (Braun & Clarke, 2006). A partir de uma leitura aprofundada e comparativa dos
artigos selecionados, foram construídas as seguintes categorias analíticas:
1. Conceitualização e modelos teóricos da adicção digital em adolescentes
2. Fatores de risco e fatores protetores associados ao uso problemático de
tecnologias digitais
3. Consequências psicológicas, sociais e acadêmicas da adicção digital
4. Papel do contexto familiar e educacional no desenvolvimento do problema
5. Estratégias de prevenção, intervenção e promoção do bem-estar digital
Essas categorias permitiram organizar e sistematizar os resultados, favorecendo uma
discussão teórica integrada e coerente com os objetivos do estudo (Snyder, 2019).
Considerações éticas e rigor metodológico
Por se tratar de um estudo de revisão, não foi necessária a aprovação de um comitê de
ética, uma vez que foram utilizadas exclusivamente fontes secundárias previamente
publicadas. No entanto, foram respeitados os princípios de integridade acadêmica, citação
adequada e transparência metodológica. O uso do enfoque PRISMA contribuiu para
fortalecer a validade e a confiabilidade do estudo, garantindo a rastreabilidade do
processo e a possibilidade de replicação por outros pesquisadores (Page et al., 2021).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conceitualização e modelos teóricos da adicção digital em adolescentes
Os resultados da revisão evidenciam que a adicção digital em adolescentes é um
constructo conceituado de maneira diversa na literatura científica, refletindo a
complexidade do fenômeno e a ausência de um consenso terminológico definitivo. Os
estudos analisados utilizam termos como adicção à Internet, uso problemático de
tecnologias digitais, dependência tecnológica e transtornos por uso de videogames ou
redes sociais, os quais, embora apresentem nuances diferenciais, compartilham elementos
centrais ligados à perda de controle, à interferência funcional e à persistência do
comportamento apesar de suas consequências negativas (Kuss & Lopez-Fernandez, 2016;
Kardefelt-Winther et al., 2017).
Sob uma perspectiva clínica, uma parte significativa dos estudos revisados apoia-se no
marco das adições comportamentais, equiparando a adicção digital a outros
comportamentos adictivos não relacionados a substâncias, como o jogo patológico (Grant
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et al., 2010; Griffiths, 2005). Nessa linha, identificam-se sintomas característicos como
tolerância necessidade de aumentar o tempo de uso —, abstinência psicológica mal-
estar emocional diante da restrição — e prejuízo no funcionamento acadêmico, social ou
familiar (American Psychiatric Association, 2013). Essa conceitualização tem sido
especialmente relevante na análise do transtorno por uso de videogames, incluído no
DSM-5 como condição para estudo, o que legitimou a abordagem científica do problema
na população adolescente (American Psychiatric Association, 2013).
No entanto, os resultados também mostram uma postura crítica em relação ao uso
indiscriminado do termo “adicção”, particularmente em adolescentes, dado o risco de
patologizar comportamentos normativos em um contexto de alta digitalização (Kardefelt-
Winther et al., 2017; Odgers & Jensen, 2020). A partir dessa perspectiva, alguns autores
propõem o conceito de uso problemático como uma alternativa mais flexível, centrada
nas consequências funcionais do comportamento e não apenas na frequência ou
intensidade de uso (Billieux et al., 2015). Essa perspectiva é especialmente relevante em
adolescentes, cujo uso intensivo de tecnologia costuma estar vinculado a demandas
educacionais, sociais e recreativas próprias de sua etapa de vida (Livingstone et al., 2018).
Entre os modelos teóricos identificados, o modelo cognitivo-comportamental ocupa um
lugar central na literatura revisada. Davis (2001) propõe que o uso problemático da
Internet surge a partir de cognições desadaptativas, tais como crenças negativas sobre si
mesmo ou sobre o mundo offline, que interagem com as características reforçadoras do
ambiente digital. Esse modelo foi ampliado por Caplan (2010), que introduz o conceito
de preferência pela interação social online, assinalando que adolescentes com
dificuldades sociais ou emocionais podem encontrar nos ambientes digitais um espaço
percebido como mais seguro e controlável, reforçando assim o uso compulsivo.
Os resultados também destacam a contribuição do modelo biopsicossocial, que concebe
a adicção digital como o resultado da interação entre fatores individuais, familiares,
escolares e socioculturais (Griffiths, 2005; Kuss et al., 2014). A partir dessa abordagem,
a vulnerabilidade adolescente é explicada não apenas por traços pessoais como
impulsividade ou baixa autoestima, mas também por contextos familiares caracterizados
por escassa supervisão, climas escolares pouco acolhedores e uma cultura digital que
normaliza a hiperconectividade (Yen et al., 2007; Wartberg et al., 2014). Esse modelo
permite uma compreensão mais integral do fenômeno e evita abordagens reducionistas
centradas exclusivamente no indivíduo.
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A teoria da autodeterminação emerge como um marco explicativo relevante em
numerosos estudos analisados. Segundo Ryan et al. (2006), os ambientes digitais
satisfazem necessidades psicológicas básicas de autonomia, competência e
pertencimento, o que explica seu alto atrativo para os adolescentes. Os videogames online
e as redes sociais, em particular, oferecem sistemas de recompensas imediatas e feedback
constante que reforçam a sensação de conquista e aceitação social (Przybylski et al., 2010;
Kuss et al., 2012). Contudo, quando essas necessidades são satisfeitas
predominantemente no ambiente virtual, aumenta o risco de dependência e desconexão
do contexto offline.
A partir da neurociência do desenvolvimento, os estudos revisados fornecem evidência
sólida sobre a base neurobiológica da vulnerabilidade adolescente diante da adicção
digital. A imaturidade do córtex pré-frontal, responsável por funções executivas como
autocontrole e planejamento, combinada com uma maior sensibilidade do sistema de
recompensa, favorece a busca de gratificação imediata e dificulta a regulação do uso
tecnológico (Casey et al., 2011; Steinberg, 2014). Essa assimetria no desenvolvimento
cerebral é particularmente relevante para compreender por que os adolescentes são mais
suscetíveis aos estímulos digitais concebidos sob princípios de reforço intermitente
(Montag et al., 2019).
Em síntese, os resultados dessa categoria evidenciam que a adicção digital em
adolescentes é um fenômeno conceituado a partir de múltiplas abordagens teóricas, cada
uma das quais oferece elementos explicativos complementares. A discussão teórica
sugere a necessidade de adotar modelos integradores que reconheçam a interação entre
fatores individuais, contextuais e tecnológicos, evitando interpretações simplistas ou
patologizantes. Essa diversidade conceitual constitui tanto uma fortaleza quanto um
desafio para o campo, pois amplia a compreensão do fenômeno, mas também dificulta a
padronização de critérios diagnósticos e intervenções (Kardefelt-Winther et al., 2017;
Odgers & Jensen, 2020).
Fatores de risco e fatores protetores associados ao uso problemático de tecnologias
digitais em adolescentes
Os resultados da revisão evidenciam que a adicção digital em adolescentes se configura
a partir de uma complexa interação de fatores de risco e fatores protetores, que atuam em
nível individual, familiar, escolar e sociocultural. A literatura analisada concorda que não
existe uma causa única para o uso problemático de tecnologias digitais, mas sim uma
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convergência de variáveis que aumentam ou atenuam a probabilidade de desenvolver
comportamentos adictivos (Griffiths, 2005; Kuss et al., 2014).
Entre os fatores de risco individuais, destacam-se de forma consistente a impulsividade,
a baixa autoestima, a escassa autorregulação emocional e a presença de sintomatologia
ansiosa ou depressiva (Billieux et al., 2015; Elhai et al., 2017). Diversos estudos indicam
que adolescentes com dificuldades para lidar com emoções negativas tendem a utilizar as
tecnologias digitais como estratégias de enfrentamento evitativo, reforçando padrões de
uso compulsivo (Hormes et al., 2014; Marino et al., 2018). Essa relação bidirecional
sugere que o mal-estar psicológico atua tanto como antecedente quanto como
consequência da adicção digital (Odgers & Jensen, 2020).
A busca por sensações e a necessidade de gratificação imediata foram identificadas como
fatores de risco relevantes durante a adolescência, etapa caracterizada por maior
sensibilidade ao reforço e menor capacidade de inibição comportamental (Steinberg,
2014; Casey et al., 2011). As plataformas digitais, desenhadas para maximizar a atenção
por meio de recompensas variáveis e feedback constante, potencializam essas disposições
individuais, aumentando o risco de dependência (Alter, 2017; Montag et al., 2019).
No nível familiar, os estudos revisados assinalam que a baixa supervisão parental, a
comunicação deficiente e os estilos educativos inconsistentes associam-se
significativamente a um maior uso problemático de tecnologias digitais em adolescentes
(Yen et al., 2007; Lauricella et al., 2015). Em contraste, a presença de normas claras, o
acompanhamento ativo e a modelagem de hábitos digitais saudáveis por parte dos adultos
funcionam como fatores protetores diante do desenvolvimento de comportamentos
adictivos (Livingstone & Helsper, 2008; Wartberg et al., 2014).
No âmbito escolar, identificam-se como fatores de risco o baixo engajamento acadêmico,
o clima escolar negativo e a ausência de programas de educação digital, enquanto a
promoção de habilidades socioemocionais, a alfabetização midiática e o sentimento de
pertencimento escolar emergem como fatores protetores relevantes (Buckingham, 2015;
Hobbs, 2017). Esses achados reforçam a necessidade de abordagens preventivas integrais
que envolvam a escola como agente-chave do bem-estar digital adolescente.
Sob uma perspectiva sociocultural, a normalização do uso intensivo de tecnologias e a
pressão social pela conectividade permanente constituem fatores de risco estruturais que
dificultam a autorregulação do uso digital (Livingstone et al., 2018; Odgers & Robb,
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2020). No entanto, a promoção de uma cultura digital crítica e reflexiva pode atuar como
um poderoso fator protetor, favorecendo um uso consciente e equilibrado da tecnologia.
Consequências psicológicas, sociais e acadêmicas da adicção digital em adolescentes
Os resultados da revisão mostram que a adicção digital em adolescentes se associa de
maneira consistente a múltiplas consequências negativas nos âmbitos psicológico, social
e acadêmico, as quais impactam diretamente o bem-estar integral e o desenvolvimento
saudável durante essa etapa da vida (Kuss & Lopez-Fernandez, 2016; Twenge et al.,
2019).
No plano psicológico, numerosos estudos evidenciam uma relação significativa entre o
uso problemático de tecnologias digitais e o aumento de sintomas de ansiedade,
depressão, estresse e transtornos do sono (Elhai et al., 2017; Marino et al., 2018). A
exposição prolongada às telas, especialmente no período noturno, altera os ritmos
circadianos e afeta a qualidade do descanso, o que por sua vez repercute na regulação
emocional e no funcionamento cognitivo (Cain & Gradisar, 2010; Twenge et al., 2019).
Do ponto de vista social, a adicção digital está vinculada a dificuldades nas relações
interpessoais, isolamento social e dependência excessiva da validação virtual (Kross et
al., 2013; Verduyn et al., 2017). Embora as tecnologias digitais possam facilitar a conexão
social, os estudos revisados alertam que um uso excessivo pode empobrecer a qualidade
das interações presenciais e limitar o desenvolvimento de habilidades sociais
fundamentais durante a adolescência (Nesi et al., 2018; Valkenburg & Peter, 2011).
No âmbito acadêmico, as evidências apontam uma associação negativa entre a adicção
digital e o desempenho escolar, mediada pela diminuição da atenção sustentada, pela
procrastinação e pela multitarefa digital (Rosen et al., 2013; Lepp et al., 2014). A
multitarefa, frequente entre adolescentes hiperconectados, demonstrou efeitos
prejudiciais sobre a memória de trabalho e a compreensão profunda dos conteúdos,
afetando a aprendizagem significativa (Ophir et al., 2009; Uncapher & Wagner, 2018).
Essas consequências reforçam a necessidade de abordar a adicção digital não apenas
como uma problemática individual, mas como um fenômeno com amplas implicações
educacionais e sociais que exigem intervenções sistêmicas e preventivas (Livingstone et
al., 2018; Odgers & Jensen, 2020).
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Papel do contexto familiar e educacional no desenvolvimento da adicção digital
Os estudos analisados coincidem em que o contexto familiar e educacional desempenha
um papel central no desenvolvimento, manutenção e prevenção da adicção digital em
adolescentes (Wartberg et al., 2014; Livingstone & Helsper, 2008). A família constitui o
primeiro espaço de socialização digital, onde se estabelecem normas, hábitos e atitudes
em relação ao uso da tecnologia.
As evidências indicam que estilos parentais caracterizados por acompanhamento ativo,
comunicação aberta e coerência normativa associam-se a menores níveis de uso
problemático de tecnologias digitais (Yen et al., 2007; Lauricella et al., 2015). Em
contraste, a ausência de limites claros ou o uso excessivo de dispositivos pelos próprios
cuidadores aumenta o risco de dependência adolescente por meio de processos de
modelagem comportamental (Shi et al., 2017).
No contexto educacional, os resultados sublinham a importância do papel docente na
promoção do bem-estar digital. A falta de formação específica em competências digitais
e socioemocionais limita a capacidade das instituições educacionais de abordar essa
problemática de maneira preventiva (Buckingham, 2015; Hobbs, 2017). Ao contrário, as
escolas que integram programas de alfabetização midiática e educação emocional
contribuem para fortalecer a autorregulação e o pensamento crítico no uso de tecnologias
digitais (Livingstone et al., 2018).
A articulação entre família e escola emerge, portanto, como um eixo estratégico para a
prevenção da adicção digital em adolescentes, favorecendo uma abordagem coerente e
compartilhada que transcenda intervenções isoladas (Odgers & Robb, 2020).
Estratégias de prevenção, intervenção e promoção do bem-estar digital
Os resultados da revisão evidenciam um interesse crescente pelo desenvolvimento de
estratégias preventivas e intervenções psicoeducativas orientadas a promover um uso
saudável das tecnologias digitais em adolescentes (King et al., 2017; Livingstone et al.,
2018). A literatura destaca a eficácia de abordagens preventivas baseadas em educação
digital crítica, regulação emocional e participação ativa da família e da escola.
As intervenções de orientação cognitivo-comportamental têm mostrado resultados
positivos na redução do uso problemático de tecnologias digitais, ao trabalhar crenças
disfuncionais, habilidades de enfrentamento e controle de impulsos (Young, 2011; King
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et al., 2017). Além disso, intervenções baseadas em mindfulness e autocontrole digital
demonstraram efeitos promissores na melhora do bem-estar psicológico e da
autorregulação adolescente (Li et al., 2018; Garland et al., 2019).
Sob uma perspectiva educacional, a promoção do bem-estar digital implica superar
abordagens proibicionistas e avançar para modelos que reconheçam o potencial formativo
da tecnologia, fomentando um uso consciente, equilibrado e ético (Buckingham, 2015;
Orben, 2020). Essa abordagem integral alinha-se às recomendações internacionais que
enfatizam a necessidade de políticas públicas orientadas ao desenvolvimento saudável em
ambientes digitais (Livingstone et al., 2018; Twenge et al., 2019).
Tabela 1. Síntese dos principais achados
CATEGORIA DE
ANÁLISE
ENFOQUE
TEÓRICO
PREDOMINANTE
PRINCIPAIS ACHADOS
AUTORES
REPRESENTATI
VOS
1.
Conceitualização
e modelos
teóricos da
adicção digital em
adolescentes
Adições
comportamentais;
modelos cognitivo-
comportamentais;
abordagem
biopsicossocial;
teoria da
autodeterminação;
neurociência do
desenvolvimento
A adicção digital é conceituada
como uma adição
comportamental caracterizada
por perda de controle,
interferência funcional e
persistência do uso apesar de
consequências negativas.
Evidencia-se falta de consenso
terminológico, coexistindo os
conceitos de adicção digital e
uso problemático. Os modelos
integradores explicam o
fenômeno como resultado da
interação entre fatores
individuais, contextuais e
tecnológicos.
Griffiths (2005);
Davis (2001);
Caplan (2010);
Kuss & Lopez-
Fernandez (2016);
Kardefelt-Winther
et al. (2017); Ryan
et al. (2006); Casey
et al. (2011)
2. Fatores de risco
e fatores
protetores
associados ao uso
problemático de
tecnologias
digitais
Abordagem
biopsicossocial;
psicologia do
desenvolvimento;
autorregulação
emocional
Entre os fatores de risco
identificam-se impulsividade,
baixa autoestima, dificuldades
na regulação emocional,
sintomas ansiosos e
depressivos, baixa supervisão
parental e pressão sociocultural
pela hiperconectividade. Como
fatores protetores destacam-se
a autorregulação, o
acompanhamento parental
ativo, o clima escolar positivo
e a alfabetização digital crítica.
Billieux et al.
(2015); Elhai et al.
(2017); Steinberg
(2014); Wartberg et
al. (2014);
Livingstone et al.
(2018); Odgers &
Jensen (2020)
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CATEGORIA DE
ANÁLISE
ENFOQUE
TEÓRICO
PREDOMINANTE
PRINCIPAIS ACHADOS
AUTORES
REPRESENTATI
VOS
3. Consequências
psicológicas,
sociais e
acadêmicas da
adicção digital
Psicologia clínica e
educacional;
estudos
psicossociais;
neurocognição
O uso problemático de
tecnologias digitais associa-se
ao aumento de ansiedade,
depressão, estresse e alterações
do sono. No nível social,
observam-se dificuldades nas
relações interpessoais e
dependência da validação
virtual. No âmbito acadêmico,
identificam-se baixo
desempenho, problemas
atencionais, procrastinação e
efeitos negativos da multitarefa
digital.
Elhai et al. (2017);
Twenge et al.
(2019); Kross et al.
(2013); Rosen et al.
(2013); Ophir et al.
(2009); Uncapher
& Wagner (2018)
4. Papel do
contexto familiar
e educacional no
desenvolvimento
da adicção digital
Teoria ecológica do
desenvolvimento;
modelos de
socialização digital
A família e a escola atuam
como contextos-chave na
configuração de hábitos
digitais. A falta de normas
claras e a modelagem parental
inadequada aumentam o risco
de adicção digital, enquanto a
comunicação aberta e a
educação digital favorecem o
uso saudável. A formação
docente em bem-estar digital
emerge como uma necessidade
crítica.
Livingstone &
Helsper (2008);
Yen et al. (2007);
Lauricella et al.
(2015);
Buckingham
(2015); Hobbs
(2017)
5. Estratégias de
prevenção,
intervenção e
promoção do
bem-estar digital
Abordagens
cognitivo-
comportamentais;
mindfulness;
educação digital
crítica
As estratégias mais eficazes
são aquelas de caráter
preventivo e integral.
Destacam-se as intervenções
cognitivo-comportamentais, o
fortalecimento da regulação
emocional, o mindfulness e a
alfabetização midiática.
Propõe-se avançar para o
conceito de bem-estar digital,
superando abordagens
proibicionistas.
Young (2011);
King et al. (2017);
Li et al. (2018);
Garland et al.
(2019);
Livingstone et al.
(2018); Orben
(2020)
Fonte: Elaboração própria.
CONCLUSÕES
O presente artigo de revisão permitiu realizar uma análise sistemática, crítica e integral
da produção científica recente sobre a adicção digital em adolescentes, evidenciando que
se trata de uma problemática complexa, multidimensional e profundamente vinculada às
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transformações sociotecnológicas contemporâneas. Por meio da aplicação rigorosa da
metodologia PRISMA, foi possível identificar tendências conceituais, enfoques teóricos
predominantes, fatores de risco e proteção, consequências psicossociais e acadêmicas,
bem como estratégias de prevenção e intervenção propostas na literatura especializada, o
que contribui para uma compreensão ampla e fundamentada do fenômeno (Page et al.,
2021; Kuss & Lopez-Fernandez, 2016).
Em primeiro lugar, as conclusões derivadas da análise conceitual confirmam que a
adicção digital em adolescentes não pode ser entendida como um constructo homogêneo
nem unívoco. A coexistência de múltiplas denominações, tais como adicção digital, uso
problemático da Internet, dependência tecnológica ou transtorno por uso de videogames,
reflete tanto a riqueza teórica do campo quanto a ausência de um consenso definitivo em
relação à sua delimitação conceitual e diagnóstica (Kardefelt-Winther et al., 2017;
Billieux et al., 2015). Essa diversidade conceitual evidencia a necessidade de adotar
enfoques integradores que permitam compreender o uso problemático de tecnologias
digitais para além da mera frequência de uso, considerando suas implicações funcionais,
contextuais e subjetivas.
Sob uma perspectiva teórica, a revisão evidenciou que os modelos cognitivo-
comportamentais, biopsicossociais, motivacionais e neurobiológicos oferecem
explicações complementares sobre o desenvolvimento e a manutenção da adicção digital
em adolescentes. Os modelos cognitivo-comportamentais destacam o papel das cognições
disfuncionais e da regulação emocional deficiente na gênese do uso problemático,
enquanto os enfoques biopsicossociais sublinham a interação dinâmica entre fatores
individuais, familiares, escolares e socioculturais (Davis, 2001; Griffiths, 2005; Kuss et
al., 2014). Por sua vez, a teoria da autodeterminação e os aportes da neurociência do
desenvolvimento permitem compreender por que os ambientes digitais são
particularmente atraentes para os adolescentes, ao satisfazer necessidades psicológicas
básicas e ativar sistemas de recompensa em uma etapa caracterizada pela imaturidade dos
mecanismos de autocontrole (Ryan et al., 2006; Steinberg, 2014).
Um achado central do estudo é que a adolescência constitui um período de especial
vulnerabilidade diante da adicção digital, não apenas pelas características neurobiológicas
próprias dessa etapa, mas também pelos desafios emocionais, identitários e sociais que a
atravessam. A busca por pertencimento, reconhecimento e validação social, juntamente
com a necessidade de explorar a própria identidade, encontra nos ambientes digitais um
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espaço privilegiado, mas também potencialmente arriscado quando o uso se torna
compulsivo ou desregulado (Blakemore & Mills, 2014; Nesi et al., 2018). Essa evidência
reforça a importância de compreender a adicção digital em adolescentes como um
fenômeno evolutivo e contextualizado, evitando interpretações reducionistas ou
estigmatizantes.
Em relação aos fatores de risco e proteção, as conclusões do estudo confirmam que o uso
problemático de tecnologias digitais emerge da convergência de múltiplas variáveis.
Entre os fatores de risco individuais, identificam-se de maneira consistente a
impulsividade, a baixa autoestima, as dificuldades na regulação emocional e a presença
de sintomas ansiosos ou depressivos, que predispõem os adolescentes a utilizar a
tecnologia como estratégia de enfrentamento evitativa diante do mal-estar psicológico
(Elhai et al., 2017; Marino et al., 2018). No entanto, a revisão também destaca a existência
de fatores protetores-chave, como a autorregulação emocional, o desenvolvimento de
habilidades socioemocionais e o pensamento crítico, que podem mitigar
significativamente o risco de adicção digital.
No nível familiar, as conclusões evidenciam que o acompanhamento parental ativo, a
comunicação aberta e o estabelecimento de normas claras em relação ao uso da tecnologia
constituem fatores protetores fundamentais. Em contraste, a ausência de supervisão, a
inconsistência normativa ou a modelagem de um uso excessivo por parte dos adultos
aumentam a vulnerabilidade dos adolescentes diante da dependência digital (Livingstone
& Helsper, 2008; Wartberg et al., 2014). Esses achados sublinham o papel central da
família como agente de socialização digital e como espaço privilegiado para a prevenção
precoce.
No âmbito educacional, o estudo conclui que as instituições escolares desempenham um
papel estratégico tanto na prevenção quanto na detecção do uso problemático de
tecnologias digitais. A evidência revisada assinala que a falta de formação docente em
competências digitais e socioemocionais limita a capacidade das escolas de abordar essa
problemática de maneira sistemática e preventiva (Buckingham, 2015; Hobbs, 2017). Ao
contrário, a integração de programas de alfabetização midiática, educação emocional e
bem-estar digital favorece o desenvolvimento de hábitos tecnológicos saudáveis e
fortalece a autorregulação nos adolescentes.
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Outro aspecto relevante que emerge das conclusões é o impacto negativo da adicção
digital em múltiplas dimensões do desenvolvimento adolescente. No nível psicológico,
identificam-se associações consistentes com ansiedade, depressão, estresse e alterações
do sono, o que compromete o bem-estar emocional e a saúde mental (Twenge et al., 2019;
Cain & Gradisar, 2010). No plano social, o uso compulsivo de tecnologias digitais está
associado ao isolamento social, à deterioração das relações interpessoais e à dependência
da validação virtual, afetando processos-chave de socialização e construção identitária
(Kross et al., 2013; Verduyn et al., 2017). No âmbito acadêmico, constata-se uma relação
negativa com o rendimento escolar, mediada por problemas atencionais, multitarefa
digital e deterioração dos hábitos de estudo (Rosen et al., 2013; Uncapher & Wagner,
2018).
Essas consequências evidenciam que a adicção digital em adolescentes não é uma
problemática isolada nem exclusivamente individual, mas um fenômeno com profundas
implicações educacionais, familiares e sociais. Nesse sentido, as conclusões do estudo
reforçam a necessidade de adotar enfoques integrais e sistêmicos que articulem ações
preventivas, educacionais e terapêuticas, superando intervenções fragmentadas ou
reativas. A evidência sugere que as estratégias mais eficazes são aquelas que combinam
o fortalecimento de habilidades pessoais com a modificação dos contextos familiares,
escolares e socioculturais nos quais o adolescente está inserido (Livingstone et al., 2018;
Odgers & Jensen, 2020).
Sob uma perspectiva aplicada, o estudo conclui que é fundamental avançar para o
conceito de bem-estar digital, entendido como a capacidade de utilizar a tecnologia de
maneira equilibrada, consciente e orientada ao desenvolvimento pessoal e social. Esse
enfoque implica transcender visões proibicionistas ou alarmistas e promover uma relação
saudável com os ambientes digitais, reconhecendo tanto seus riscos quanto suas
potencialidades educacionais e comunicativas (Orben, 2020; Livingstone et al., 2018). As
intervenções baseadas em enfoques cognitivo-comportamentais, mindfulness, educação
emocional e alfabetização digital crítica emergem como estratégias promissoras para a
promoção do bem-estar digital adolescente (King et al., 2017; Li et al., 2018; Garland et
al., 2019).
Quanto às implicações para pesquisas futuras, as conclusões do presente artigo assinalam
a necessidade de aprofundar estudos longitudinais que permitam esclarecer a
direcionalidade e os mecanismos causais entre o uso problemático de tecnologias digitais
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e o bem-estar adolescente. Também se destaca a importância de avançar em direção à
padronização de instrumentos de avaliação e critérios conceituais que facilitem a
comparabilidade entre estudos e contextos culturais (Kardefelt-Winther et al., 2017;
Odgers & Robb, 2020). Também é pertinente ampliar a pesquisa em contextos latino-
americanos, onde a evidência ainda é limitada em comparação com países desenvolvidos.
Este estudo conclui que a adicção digital em adolescentes constitui um desafio prioritário
para os sistemas educacionais, de saúde e sociais, que exige respostas baseadas em
evidência científica, sensibilidade evolutiva e enfoque preventivo. Mais do que restringir
o acesso à tecnologia, o desafio consiste em acompanhar os adolescentes na construção
de uma relação crítica, autônoma e saudável com os ambientes digitais, favorecendo seu
desenvolvimento integral, seu bem-estar emocional e sua participação ativa e responsável
na sociedade contemporânea. Nesse marco, a promoção do bem-estar digital consolida-
se como um eixo central para as políticas educacionais e de saúde mental voltadas à
adolescência no século XXI.
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