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Bem-Estar Psicológico em Docentes
Psychological Well-Being in Teachers
Marcos Almeida Rocha
marcosar17@gmail.com
https://orcid.org/0009-0008-0871-3415
Universidade Federal do Pampa
Brasil
Artículo recibido: 13/01/2024
Aceptado para publicación: 24/02/2024
Conflictos de Intereses: Ninguno que declarar
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RESUMO
O presente artigo tem como objetivo analisar e sistematizar a produção científica
sobre o bem-estar psicológico em docentes, integrando literatura recente e referências
teóricas fundacionais da área, com a finalidade de identificar suas principais
conceitualizações, modelos teóricos, fatores associados, problemáticas recorrentes e
contribuições para a prática educativa e as políticas públicas. Para isso, foi desenvolvida
uma revisão narrativa da literatura, que incluiu a busca e a análise de artigos científicos
publicados em bases de dados acadêmicas internacionais e regionais. O processo foi
conduzido por meio de uma abordagem qualitativa e análise temática, organizando os
achados em categorias analíticas previamente definidas. Os resultados evidenciam que o
bem-estar psicológico docente é concebido como um construto multidimensional de
natureza eudaimônica, estreitamente vinculado ao propósito profissional, ao
desenvolvimento pessoal e ao equilíbrio entre demandas laborais e recursos individuais e
institucionais. Além disso, identificam-se fatores protetores como a autoeficácia, e
resiliência, o apoio social e a autonomia pedagógica, juntamente com problemáticas
persistentes relacionadas ao estresse laboral e ao burnout. Conclui-se que a promoção do
bem-estar psicológico docente constitui um elemento-chave para a qualidade educacional
e a sustentabilidade dos sistemas educativos.
Palavras-chave: bem-estar psicológico; docentes; saúde mental ocupacional
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ABSTRACT
This article aims to analyze and systematize scientific production on
psychological well-being in teachers, integrating recent literature and foundational
theoretical references, with the purpose of identifying its main conceptualizations,
theoretical models, associated factors, recurring problems, and contributions to
educational practice and public policy. To this end, a narrative literature review was
carried out, including the search and analysis of scientific articles published in
international and regional academic databases. The analysis was conducted through a
qualitative approach and thematic analysis, organizing the findings into previously
defined analytical categories. The results indicate that teachers' psychological well-being
is conceived as a multidimensional construct of a eudaimonic nature, closely related to
professional purpose, personal development, and the balance between work demands and
individual and institutional resources. Likewise, protective factors were identified, such
as self-efficacy, resilience, social support, and pedagogical autonomy, along with
persistent problems related to occupational stress and burnout. It is concluded that
promoting teachers' psychological well-being is a fundamental element for educational
quality and the sustainability of education systems.
Keywords: psychological well-being; teachers; occupational mental health
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INTRODUÇÃO
O bem-estar psicológico em docentes constitui um construto central para compreender a
qualidade dos processos educativos e a sustentabilidade do exercício profissional em
contextos escolares cada vez mais complexos. A partir da psicologia positiva e da
psicologia da saúde, esse construto é concebido como um estado multidimensional que
integra aspectos emocionais, cognitivos e sociais, e que repercute tanto na qualidade de
vida dos professores quanto nos processos de ensino-aprendizagem, no clima escolar e
no desempenho acadêmico dos estudantes (Ryff, 1989; Keyes, 2002; Travers & Cooper,
1996; Jennings & Greenberg, 2009). Seu comprometimento, por sua vez, está associado
ao esgotamento emocional, à desmotivação e ao abandono da profissão docente (Maslach,
Schaufeli & Leiter, 2001).
Do ponto de vista teórico, o bem-estar psicológico docente tem sido amplamente
desenvolvido a partir do modelo eudaimônico proposto por Ryff (1989), que identifica
seis dimensões fundamentais auto aceitação, relações positivas com os outros,
autonomia, domínio do ambiente, propósito de vida e crescimento pessoal cuja
aplicação ao contexto educacional é examinada em detalhe na Fundamentação Teórica e
nos Resultados desta revisão (Ryff & Keyes, 1995).
Sob uma perspectiva contextual, o bem-estar psicológico em docentes é profundamente
influenciado pelas condições laborais e organizacionais. Fatores como sobrecarga de
trabalho, pressão administrativa, precarização laboral e falta de recursos educacionais têm
sido identificados como determinantes do mal-estar psicológico no professorado
(Kyriacou, 2001), problemática agravada na América Latina por desigualdades
estruturais e limitações orçamentárias (Vaillant & Rossel, 2006).
O estresse laboral e o burnout caracterizado por exaustão emocional,
despersonalização e baixa realização pessoal representam algumas das expressões
mais graves da deterioração do bem-estar psicológico docente (Kyriacou, 2001; Maslach
et al., 2001), problemática que a literatura recente tem abordado a partir de modelos
integradores como o de demandas e recursos de trabalho (JD-R), examinado com maior
detalhe na Fundamentação Teórica (Bakker & Demerouti, 2017).
A pandemia de COVID-19 evidenciou ainda mais a vulnerabilidade do bem-estar
psicológico docente diante de situações de crise (Pressley, 2021; Kim & Asbury, 2020),
consolidando a promoção desse bem-estar como prioridade nas agendas educacionais
internacionais (UNESCO, 2021; OECD, 2020).
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O bem-estar psicológico em docentes deve, portanto, ser compreendido como um
processo dinâmico, influenciado por fatores individuais, institucionais e socioculturais,
cuja abordagem requer uma perspectiva sistêmica que integre pesquisa científica, prática
educativa e formulação de políticas públicas (Day & Gu, 2014). Fortalecer o bem-estar
psicológico docente não constitui apenas uma responsabilidade ética, mas também uma
estratégia fundamental para melhorar a qualidade e a equidade da educação.
O bem-estar psicológico em docentes tem se consolidado como um eixo central de análise
na pesquisa educacional contemporânea, devido à sua estreita relação com a qualidade
dos processos de ensino-aprendizagem, o clima institucional e a sustentabilidade da
profissão docente. Em um contexto marcado por transformações curriculares, crescentes
demandas administrativas e mudanças socioculturais aceleradas, os docentes enfrentam
múltiplas pressões que impactam diretamente sua saúde mental e emocional (Kyriacou,
2001). Essas condições têm levado o bem-estar psicológico a deixar de ser considerado
uma questão individual para se posicionar como um desafio estrutural dos sistemas
educativos (OECD, 2020).
Nas últimas décadas, a literatura científica tem evidenciado que o bem-estar psicológico
docente influencia significativamente variáveis-chave do âmbito educacional, como a
motivação profissional, o comprometimento laboral, a autoeficácia pedagógica e a
permanência na carreira docente (Skaalvik & Skaalvik, 2017). Docentes com altos níveis
de bem-estar tendem a desenvolver práticas pedagógicas mais inovadoras, estabelecer
relações mais positivas com seus estudantes e gerir de forma mais eficaz às demandas do
ambiente escolar (Jennings & Greenberg, 2009). Em contrapartida, o comprometimento
do bem-estar psicológico está associado ao aumento do estresse laboral, ao esgotamento
emocional e ao burnout, com consequências negativas tanto para os docentes quanto para
as instituições educativas (Maslach, Schaufeli & Leiter, 2001).
A relevância deste estudo se intensifica no contexto latino-americano, onde os docentes
frequentemente desempenham sua atividade em condições de precarização laboral,
escassez de recursos e alta exposição a problemáticas sociais complexas (Vaillant &
Rossel, 2006). Essas realidades configuram cenários de alta exigência emocional que
aumentam a vulnerabilidade psicológica do professorado e demandam investigações que
permitam compreender o fenômeno a partir de uma perspectiva contextualizada (Tenti
Fanfani, 2008). Além disso, a pandemia de COVID-19 aprofundou essas tensões,
evidenciando a fragilidade do bem-estar psicológico docente diante de situações de crise
e mudanças abruptas (Kim & Asbury, 2020).
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Nesse marco, estudar o bem-estar psicológico em docentes é relevante não apenas por
suas implicações individuais, mas também por seu impacto sistêmico na qualidade
educacional e no desenvolvimento sustentável dos sistemas escolares. A produção de
evidências científicas sólidas nesse campo permite orientar políticas públicas, programas
de formação docente e estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental e
ao fortalecimento do papel docente (UNESCO, 2021).
Fundamentação Teórica
O bem-estar psicológico tem sido conceituado a partir de diversas perspectivas teóricas
dentro da psicologia, destacando-se o enfoque eudaimônico proposto por Ryff (1989),
que o concebe como um processo de desenvolvimento humano orientado ao
funcionamento ótimo e à autorrealização. Esse modelo identifica seis dimensões centrais:
auto aceitação, relações positivas com os outros, autonomia, domínio do ambiente,
propósito de vida e crescimento pessoal, as quais oferecem um marco integral para
analisar o bem-estar psicológico em contextos laborais complexos como o educacional
(Ryff & Keyes, 1995).
Nessa perspectiva, o bem-estar psicológico docente implica não apenas a ausência de
mal-estar ou doença, mas a presença de recursos pessoais que permitam enfrentar de
forma adaptativa as demandas profissionais e promover o desenvolvimento pessoal e
profissional contínuo (Keyes, 2002). A docência, por ser uma profissão de alta implicação
emocional e social, exige elevados níveis de regulação emocional, sentido de propósito e
competências interpessoais, o que torna especialmente pertinente a aplicação do modelo
de Ryff ao estudo do bem-estar docente (Day, 2004).
De forma complementar, a teoria da autodeterminação oferece um marco explicativo
relevante ao relacionar o bem-estar psicológico à satisfação de três necessidades
psicológicas sicas: autonomia, competência e relações sociais (Ryan & Deci, 2000).
No contexto educacional, diversos estudos demonstram que, quando essas necessidades
são atendidas no ambiente de trabalho, os docentes experimentam maiores níveis de
motivação intrínseca, compromisso profissional e bem-estar psicológico (Deci & Ryan,
2008). Por outro lado, a falta de autonomia pedagógica, o baixo reconhecimento
profissional e relações laborais conflituosas estão associados ao mal-estar psicológico e
à desmotivação (Pearson & Moomaw, 2005).
O modelo de demandas e recursos de trabalho (JD-R) tem sido amplamente utilizado para
explicar o bem-estar psicológico em docentes, ao propor que o equilíbrio entre as
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demandas laborais e os recursos disponíveis determina o nível de bem-estar ou desgaste
profissional (Bakker & Demerouti, 2017). Nesse marco, recursos como o apoio social, a
autoeficácia docente e as oportunidades de desenvolvimento profissional atuam como
fatores protetores frente ao estresse e ao burnout (Hakanen, Bakker & Schaufeli, 2006).
Esse enfoque é especialmente útil para compreender o bem-estar psicológico docente em
contextos educacionais caracterizados por altas exigências e limitações estruturais.
A literatura recente destaca a importância de integrar abordagens positivas e preventivas
no estudo do bem-estar psicológico docente, superando visões centradas exclusivamente
no déficit ou no risco psicossocial (Seligman, 2011). A partir dessa perspectiva, o bem-
estar psicológico configura-se como um recurso estratégico para a qualidade educacional,
o desenvolvimento organizacional e a construção de sistemas educativos mais humanos
e sustentáveis (OECD, 2020).
Apesar do crescente reconhecimento da importância do bem-estar psicológico em
docentes, numerosos estudos evidenciam que o professorado enfrenta níveis elevados de
estresse laboral e mal-estar psicológico em diversos contextos educativos (Kyriacou,
2001). A intensificação do trabalho docente, caracterizada pela sobrecarga administrativa,
pela pressão por resultados acadêmicos e pela multiplicidade de papéis assumidos, tem
gerado um cenário propício à deterioração da saúde mental dos professores (Travers,
2017). Essas condições afetam não apenas o desempenho profissional, mas também a
qualidade de vida e a permanência na carreira docente (Skaalvik & Skaalvik, 2017).
Um dos principais problemas identificados na literatura é a alta prevalência da síndrome
de burnout em docentes (Maslach et al., 2001; Ozamiz-Etxebarria et al., 2023),
especialmente nos níveis de educação obrigatória e em contextos de vulnerabilidade
social. O esgotamento emocional, a despersonalização e a baixa realização pessoal
constituem manifestações da deterioração do bem-estar psicológico que impactam
negativamente nas relações pedagógicas e no clima escolar (Schaufeli & Taris, 2014). Na
América Latina, essas problemáticas são agravadas por condições laborais precárias,
salários insuficientes e escasso apoio institucional (Vaillant & Rossel, 2006).
Observa-se uma lacuna significativa entre as exigências do sistema educativo e os
recursos disponíveis para o cuidado do bem-estar psicológico docente. Em muitos
contextos, as políticas educacionais priorizam o rendimento acadêmico e a avaliação
padronizada, relegando a atenção à saúde mental do professorado (Tenti Fanfani, 2008).
Essa ausência de enfoque preventivo e promocional contribui para a naturalização do mal-
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estar docente e para a invisibilização de suas consequências a longo prazo (Jennings &
Greenberg, 2009).
Outro aspecto problemático reside na escassez de pesquisas contextualizadas que
abordem o bem-estar psicológico docente a partir de uma perspectiva integral,
especialmente em países em desenvolvimento. Grande parte das evidências disponíveis
provém de contextos anglo-saxões, o que limita a transferência direta dos resultados para
realidades socioculturais distintas (OECD, 2020). Essa situação evidencia a necessidade
de estudos que analisem o bem-estar psicológico docente considerando fatores
individuais, institucionais e contextuais próprios de cada sistema educativo (UNESCO,
2021).
Objetivos e Perguntas de Pesquisa
O objetivo geral do presente estudo é analisar e sistematizar a produção científica sobre
o bem-estar psicológico em docentes, considerando tanto estudos recentes quanto
referências teóricas fundacionais, com o propósito de identificar os principais enfoques
teóricos, fatores associados, problemáticas recorrentes e contribuições relevantes para a
prática educacional e a formulação de políticas públicas (Ryff, 1989; OECD, 2020).
Como objetivos específicos, propõe-se:
a) identificar os modelos teóricos mais utilizados no estudo do bem-estar psicológico
docente;
b) analisar os fatores individuais e contextuais associados ao bem-estar psicológico
no professorado;
c) descrever as principais problemáticas vinculadas ao mal-estar psicológico, ao
estresse laboral e ao burnout docente; e
d) examinar as implicações do bem-estar psicológico docente para a qualidade
educacional e o desenvolvimento profissional (Jennings & Greenberg, 2009;
Maslach et al., 2001).
A partir desses objetivos, formulam-se as seguintes perguntas de pesquisa:
Como se conceitua o bem-estar psicológico em docentes na literatura científica recente?
Quais fatores pessoais, institucionais e contextuais influenciam o bem-estar psicológico
do professorado? Quais são as principais problemáticas associadas à deterioração do bem-
estar psicológico docente? E quais contribuições a pesquisa atual oferece para o desenho
de estratégias voltadas à promoção do bem-estar psicológico no âmbito educacional?
(Kyriacou, 2001; UNESCO, 2021).
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METODOLOGIA
O presente estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão narrativa da literatura,
abordagem adequada para sintetizar de maneira ordenada e crítica a produção científica
sobre o bem-estar psicológico em docentes combinando estudos recentes e referências
teóricas fundacionais , integrando contribuições teóricas e empíricas de diferentes
tradições disciplinares e identificando tendências, fatores associados e problemáticas
abordadas em distintos contextos educacionais.
Desenho metodológico
Adotou-se um desenho qualitativo de revisão narrativa, orientado para a análise,
integração e síntese temática de estudos empíricos e teóricos previamente publicados.
Esse tipo de desenho é adequado para examinar fenômenos complexos e
multidimensionais, como o bem-estar psicológico docente, permitindo uma compreensão
aprofundada dos enfoques conceituais e dos resultados reportados na literatura
especializada (Snyder, 2019). A revisão concentrou-se em investigações que abordassem
o bem-estar psicológico a partir de perspectivas psicológicas, educacionais e
organizacionais, em diferentes níveis e contextos do sistema educacional.
Procedimento de revisão
A busca bibliográfica foi realizada em bases de dados acadêmicas internacionais e
regionais reconhecidas por seu rigor científico Scopus, Web of Science, ERIC,
SciELO e Redalyc , utilizando descritores em espanhol, português e inglês combinados
por meio dos operadores booleanos AND e OR, entre os quais bem-estar psicológico,
psychological well-being, docentes, teachers, professores, teacher well-being, estresse
docente e burnout, priorizando publicações recentes com o objetivo de garantir a
atualidade dos achados. Foram priorizadas publicações compreendidas entre 2019 e 2024,
admitindo-se trabalhos anteriores quando correspondem a referências teóricas
fundacionais ou de especial relevância para o tema. A busca foi posteriormente atualizada
para incorporar estudos do período 20222024 que não haviam sido recuperados na
primeira etapa. A seleção dos materiais considerou como critérios centrais: artigos
revisados por pares e obras de referência que abordassem explicitamente o bem-estar
psicológico em docentes, publicados em espanhol, português ou inglês; foram deixados
de lado documentos não arbitrados, estudos centrados exclusivamente em estudantes ou
em outros profissionais não docentes, e materiais que tratassem o bem-estar apenas de
forma tangencial. Os textos identificados foram avaliados por título, resumo e, quando
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pertinente, leitura integral, e as informações relevantes de cada um autoria, ano,
enfoque teórico, principais resultados e conclusões foram sistematizadas em uma
matriz de análise elaborada ad hoc (Snyder, 2019). A análise das informações foi
conduzida por meio de uma abordagem qualitativa e análise temática, o que possibilitou
organizar os achados nas seguintes categorias analíticas, definidas a partir da revisão
preliminar da literatura e dos objetivos do estudo: (1) conceitualização do bem-estar
psicológico em docentes; (2) modelos teóricos utilizados para seu estudo; (3) fatores
individuais associados ao bem-estar psicológico docente; (4) fatores contextuais e
institucionais que influenciam o bem-estar; (5) problemáticas vinculadas ao estresse
laboral e ao burnout; e (6) implicações do bem-estar psicológico para a prática educativa
e a qualidade educacional mantendo-se abertura para incorporar categorias
emergentes, conforme o caráter indutivo próprio da abordagem qualitativa (Braun &
Clarke, 2006). Por tratar-se de uma revisão documental, não houve necessidade de
procedimentos de consentimento informado; foram respeitados os princípios éticos de
citação correta das fontes e reconhecimento da autoria intelectual (APA, 2020).
Limitações metodológicas
Como limitação própria de uma revisão de caráter narrativo, este trabalho não apresenta
uma quantificação exaustiva do número de fontes avaliadas em cada etapa da busca,
tampouco uma tabela individualizada dos estudos consultados; a síntese aqui apresentada
tem finalidade temática e conceitual, e não pretende esgotar a totalidade da produção
disponível sobre o tema.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conceitualização do bem-estar psicológico em docentes
A conceitualização do bem-estar psicológico em docentes evoluiu progressivamente de
enfoques centrados na ausência de mal-estar para perspectivas integrais que destacam o
ótimo funcionamento, o desenvolvimento pessoal e a realização profissional. Na literatura
revisada, o bem-estar psicológico é entendido como um construto multidimensional que
integra componentes emocionais, cognitivos e sociais, estreitamente vinculados à
experiência subjetiva do exercício docente (Ryff, 1989; Keyes, 2002). Essa
conceitualização é especialmente relevante no âmbito educacional, onde as demandas
emocionais e relacionais constituem um elemento central do trabalho cotidiano do
professorado (Hargreaves, 2000).
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Um dos achados mais consistentes da revisão é a predominância do enfoque eudaimônico
do bem-estar psicológico, particularmente do modelo proposto por Ryff (1989), como
referencial teórico para o estudo do bem-estar docente. Nessa perspectiva, o bem-estar
não se reduz a estados de satisfação momentânea ou afeto positivo, mas é concebido como
um processo dinâmico orientado ao desenvolvimento do potencial humano, ao sentido de
propósito e à autorrealização (Ryff & Keyes, 1995). No caso dos docentes, esse enfoque
permite compreender o bem-estar como uma construção ligada à identidade profissional,
à vocação educativa e ao compromisso com a aprendizagem dos estudantes (Day, 2004).
Os resultados mostram que a autoaceitação constitui uma dimensão central na
conceitualização do bem-estar psicológico docente. Diversos autores assinalam que a
capacidade do docente de aceitar suas fortalezas e limitações profissionais está associada
a uma menor vulnerabilidade ao estresse laboral e a uma maior estabilidade emocional
diante das demandas do sistema educacional (Skaalvik & Skaalvik, 2010). A auto
aceitação favorece uma percepção mais realista do desempenho profissional e reduz a
autocrítica excessiva, identificada como fator de risco para o esgotamento emocional em
docentes (Aelterman et al., 2007).
As relações positivas com os outros constituem outro componente essencial do bem-estar
psicológico em docentes. A interação constante com estudantes, colegas e gestores torna
a docência uma profissão altamente relacional, em que a qualidade dos vínculos
interpessoais influencia diretamente o bem-estar subjetivo e profissional (Jennings &
Greenberg, 2009). Estudos empíricos indicam que o apoio social percebido no ambiente
escolar atua como fator protetor frente ao estresse e ao burnout, fortalecendo o senso de
pertencimento e a satisfação laboral (Hakanen, Bakker & Schaufeli, 2006).
Outra dimensão recorrente na conceitualização do bem-estar psicológico docente é a
autonomia profissional. A partir da teoria da autodeterminação, a autonomia é
considerada uma necessidade psicológica básica cuja satisfação é fundamental para o
bem-estar e a motivação intrínseca (Ryan & Deci, 2000). No âmbito educacional, a
autonomia se manifesta na possibilidade de tomar decisões pedagógicas, adaptar
estratégias de ensino e exercer o julgamento profissional sem restrições excessivas
(Pearson & Moomaw, 2005). Os estudos analisados coincidem em que contextos
escolares altamente controladores e burocratizados limitam a autonomia docente e geram
impacto negativo no bem-estar psicológico (Deci & Ryan, 2008).
O domínio do ambiente também aparece como dimensão-chave na conceitualização do
bem-estar psicológico em docentes. Essa dimensão refere-se à capacidade do indivíduo
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de gerir eficazmente as demandas do contexto e criar condições favoráveis para seu
desenvolvimento pessoal e profissional (Ryff, 1989). Na docência, o domínio do
ambiente relaciona-se com habilidades como gestão da sala de aula, planejamento
didático e resolução de conflitos escolares (Klassen & Chiu, 2010). A evidência empírica
sugere que docentes que percebem maior controle sobre seu ambiente laboral
experimentam níveis superiores de bem-estar psicológico e menor incidência de estresse
crônico (Tschannen-Moran & Hoy, 2001).
O propósito de vida constitui outra dimensão amplamente destacada na conceitualização
do bem-estar psicológico docente. A docência tem sido tradicionalmente associada a
motivações vocacionais e valores pró-sociais, o que confere ao trabalho educativo um
forte componente de sentido e transcendência (Day, 2004). evidências convergentes
de que docentes que atribuem um significado profundo ao seu trabalho apresentam
maiores níveis de resiliência emocional e compromisso profissional, inclusive em
contextos adversos (Beltman, Mansfield & Price, 2011). Esse achado reforça a ideia de
que o bem-estar psicológico docente se constrói não apenas a partir de condições externas,
mas também de processos internos de atribuição de sentido.
O crescimento pessoal emerge como elemento central na conceitualização do bem-estar
psicológico em docentes, especialmente em uma profissão caracterizada pela mudança
constante e pela necessidade de atualização permanente (Avalos, 2011). A percepção de
desenvolvimento contínuo, aprendizagem profissional e abertura a novas experiências
associa-se positivamente ao bem-estar psicológico e à satisfação laboral (Day & Gu,
2014). Em contraste, a falta de oportunidades de desenvolvimento profissional e de
reconhecimento institucional vincula-se a sentimentos de estagnação, frustração e
desmotivação (Skaalvik & Skaalvik, 2017).
Sob uma perspectiva integradora, os resultados da revisão permitem afirmar que a
conceitualização do bem-estar psicológico em docentes deslocou-se para enfoques
holísticos que reconhecem a interação entre fatores individuais, relacionais e
institucionais. Esse enfoque supera visões reducionistas centradas exclusivamente no
estresse ou no burnout e propõe uma compreensão mais ampla do bem-estar como recurso
estratégico para a qualidade educacional e a sustentabilidade do exercício docente
(Seligman, 2011; OECD, 2020). Nesse sentido, o bem-estar psicológico docente
configura-se como construto-chave para o desenho de políticas educacionais orientadas
não apenas ao rendimento acadêmico, mas também ao cuidado integral do professorado
(UNESCO, 2021).
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Modelos teóricos utilizados para o estudo do bem-estar psicológico em docentes
A revisão evidencia que os estudos sobre bem-estar psicológico em docentes se apoiam
em modelos de eudaimonia, motivacionais, ocupacionais e psicossociais, o que confirma
que o fenômeno é multidimensional e não pode ser explicado a partir de um único marco
interpretativo. Em termos gerais, predomina uma tendência a integrar teorias do bem-
estar com modelos do estresse laboral e recursos pessoais, buscando explicar por que
alguns docentes mantêm funcionamento ótimo apesar de elevadas demandas (Ryff, 1989;
Bakker & Demerouti, 2017). Essa diversidade teórica também reflete diferenças nos
desenhos de pesquisa, com aproximações que vão desde medições psicométricas do bem-
estar até análises explicativas do burnout e da satisfação laboral (Schaufeli & Taris, 2014;
Klassen & Chiu, 2010).
Um modelo central identificado é o bem-estar psicológico eudaimônico de Ryff, utilizado
para operacionalizar o bem-estar como desenvolvimento e funcionamento positivo por
meio de dimensões como propósito de vida, crescimento pessoal e domínio do ambiente.
No campo docente, esse enfoque permite analisar o bem-estar para além da “felicidade”
imediata, destacando o sentido do trabalho educativo, a identidade profissional e a
autorrealização como fontes estruturais de bem-estar (Ryff, 1989; Ryff & Keyes, 1995).
Na literatura revisada, esse modelo mostra-se especialmente útil para compreender a
experiência docente em contextos de exigência crônica, nos quais o bem-estar se sustenta
por valores, propósito e trajetória profissional, mais do que por estados emocionais
momentâneos (Day, 2004; Hargreaves, 2000).
Um segundo marco amplamente utilizado é a Teoria da Autodeterminação (TAD), que
explica o bem-estar em função da satisfação de necessidades psicológicas básicas:
autonomia, competência e relação. Os estudos mostram que, quando as instituições
promovem autonomia pedagógica, retroalimentação formativa e apoio relacional,
aumentam a motivação autodeterminada e o bem-estar do professorado; quando essas
necessidades são frustradas, surgem desmotivação e mal-estar (Ryan & Deci, 2000; Deci
& Ryan, 2008). Consequentemente, os resultados da revisão sugerem que o bem-estar
docente vincula-se diretamente com políticas escolares, por exemplo, controle
burocrático versus confiança profissional, e com a cultura institucional (Pearson &
Moomaw, 2005; Collie, Shapka & Perry, 2012).
No plano ocupacional, destaca-se o Modelo de Demandas e Recursos Laborais (JD-R),
que conceitualiza o bem-estar como resultado do equilíbrio entre demandas (sobrecarga,
pressão emocional, conflito de papéis) e recursos (apoio social, autonomia, recursos
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didáticos, liderança). A evidência revisada indica que o JD-R explica com clareza a
coexistência de engagement e desgaste na docência: diante de altas demandas, os recursos
amortecem o impacto e sustentam a energia laboral; quando os recursos são insuficientes,
aumenta a probabilidade de burnout (Bakker & Demerouti, 2017; Hakanen, Bakker &
Schaufeli, 2006). Vários estudos analisam, além disso, recursos pessoais como
autoeficácia e resiliência como “motores” do bem-estar sob pressão, alinhando-se com
extensões do JD-R (Xanthopoulou et al., 2007; Bandura, 1997).
Junto com o JD-R, aparece a teoria da Conservação de Recursos (COR), especialmente
útil para explicar a vulnerabilidade do bem-estar docente em cenários de perda sustentada
de recursos, como tempo, energia e reconhecimento. A COR sustenta que o estresse
aumenta quando as pessoas perdem recursos ou não consegue repô-los, e que as “espirais
de perda” explicam a deterioração progressiva do bem-estar se o ambiente não proteger
o trabalhador (Hobfoll, 1989; Hobfoll et al., 2018). Na docência, a revisão mostra que a
falta de apoio institucional, a intensificação do trabalho e a exposição a conflitos escolares
podem gerar perdas cumulativas, enquanto intervenções de apoio, mentoring e
fortalecimento de comunidades docentes ajudam a “reconstruir recursos” (Day & Gu,
2014; Johnson et al., 2012).
Também se observam modelos integradores socioemocionais, como o Modelo Prosocial
de Sala de Aula e aproximações de aprendizagem socioemocional docente, que conectam
o bem-estar do professorado com competências emocionais, qualidade dos vínculos e
resultados estudantis. Nessa linha, argumenta-se que o bem-estar docente o é apenas
um resultado individual, mas um determinante do clima da sala de aula e da regulação
emocional coletiva no espaço educativo (Jennings & Greenberg, 2009; Gross, 1998). Em
síntese, a revisão sugere que os modelos mais robustos são aqueles que integram:
propósito e desenvolvimento (Ryff), motivação e necessidades (TAD) e estrutura laboral
(JD-R/COR), oferecendo uma leitura multicausal e aplicada às políticas escolares
(Bakker & Demerouti, 2017; Ryan & Deci, 2000).
Fatores individuais associados ao bem-estar psicológico docente
Os achados mostram que o bem-estar psicológico docente relaciona-se de forma
consistente com um conjunto de recursos individuais que operam como fatores protetores
diante da pressão laboral. Entre os mais citados aparecem a autoeficácia, e resiliência, as
estratégias de enfrentamento, a regulação emocional, o otimismo e a orientação
vocacional, os quais influenciam a avaliação das demandas, a persistência diante das
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dificuldades e a qualidade das interações pedagógicas (Bandura, 1997; Lazarus &
Folkman, 1984). Uma metanálise de 173 estudos situa esses recursos pessoais na teoria
de demandas e recursos de trabalho e identifica a esperança, a motivação autônoma e o
capital psicológico entre os preditores positivos mais fortes do bem-estar docente (Zhou,
Slemp & Vella-Brodrick, 2024). Na literatura revisada, esses fatores não são interpretados
como traços fixos, mas como capacidades treináveis e sensíveis ao contexto institucional,
o que abre oportunidades para intervenções formativas (Day & Gu, 2014; Jennings &
Greenberg, 2009).
Um preditor individual particularmente sólido é a autoeficácia docente, entendida como
a crença sobre a própria capacidade de ensinar eficazmente e gerir a sala de aula. A
evidência sugere que docentes com alta autoeficácia relatam maior bem-estar e menor
esgotamento, porque percebem as demandas como desafios manejáveis e adotam
estratégias ativas de solução de problemas (Bandura, 1997; Tschannen-Moran & Hoy,
2001). Além disso, a autoeficácia associa-se a maior persistência, maior flexibilidade
didática e melhores respostas diante da diversidade em sala de aula, o que retroalimenta
o bem-estar ao melhorar resultados e reduzir a frustração profissional (Klassen & Chiu,
2010; Skaalvik & Skaalvik, 2010).
A resiliência emerge como outro fator individual-chave, definida como a capacidade de
adaptar-se e recuperar-se diante da adversidade mantendo funcionamento relativamente
estável. Os estudos revisados vinculam a resiliência ao bem-estar, especialmente em
contextos de vulnerabilidade social e recursos institucionais limitados, onde o docente
enfrenta tensões constantes (Beltman, Mansfield & Price, 2011; Day & Gu, 2014). A
resiliência docente constrói-se por meio de experiências, apoio social e sentido de
propósito, e associa-se a maior permanência na profissão e menor propensão ao burnout
(Gu & Day, 2007; Maslach et al., 2001).
Também são identificadas como determinantes individuais as estratégias de
enfrentamento e a avaliação cognitiva do estresse. Segundo o enfoque transacional, o
estresse depende de como o indivíduo interpreta as demandas e os recursos disponíveis;
por isso, enfrentamentos centrados no problema e na reestruturação cognitiva associam-
se a maior bem-estar, enquanto evitação e ruminação vinculam-se ao mal-estar (Lazarus
& Folkman, 1984; Kyriacou, 2001). Na docência, a revisão destaca que enfrentar com
planejamento, busca de apoio e gestão do tempo protege o bem-estar, especialmente
quando combinado com apoio institucional (Travers, 2017; Johnson et al., 2012).
Página | 16
A regulação emocional apresenta-se como recurso individual decisivo, dado que a
docência implica “trabalho emocional” constante. A capacidade de reconhecer emoções,
modular reações e sustentar interações pedagógicas respeitosas incide na satisfação
laboral e no clima da sala de aula, afetando diretamente o bem-estar psicológico (Gross,
1998; Hargreaves, 2000). A literatura revisada sugere que docentes com maiores
habilidades de regulação emocional apresentam menor desgaste, melhor qualidade
relacional e maior senso de eficácia interpessoal, o que reforça o bem-estar a médio prazo
(Jennings & Greenberg, 2009; Brackett et al., 2010).
Por fim, aparecem variáveis disposicionais e de sentido, como otimismo, propósito,
valores pró-sociais e significado do trabalho. Na docência, o bem-estar se fortalece
quando o professorado percebe seu trabalho como significativo e alinhado com valores
pessoais, o que amortece o impacto das demandas externas (Seligman, 2011; Day, 2004).
Em síntese, a evidência mostra que os fatores individuais não “substituem” as condições
estruturais, mas explicam parte da variabilidade do bem-estar e orientam intervenções
baseadas em habilidades socioemocionais, autoeficácia e resiliência (Beltman et al.,
2011; OECD, 2020).
Fatores contextuais e institucionais que influenciam o bem-estar
Um padrão consistente entre os estudos é que o bem-estar psicológico docente está
fortemente condicionado pelo contexto organizacional, incluindo clima escolar,
liderança, cultura institucional, carga de trabalho e disponibilidade de recursos. O bem-
estar não é entendido como atributo exclusivamente individual, mas como produto de
interações entre a pessoa e um sistema educativo que pode facilitar ou erodir recursos
psicológicos (Bakker & Demerouti, 2017; Hobfoll, 1989). Em particular, relata-se que
condições laborais desfavoráveis aumentam o estresse e a sensação de ineficácia,
enquanto ambientes de apoio sustentam o compromisso e o senso profissional (Johnson
et al., 2012; Skaalvik & Skaalvik, 2017).
Um fator institucional recorrente é a sobrecarga laboral e a intensificação do trabalho
docente, associada a tarefas administrativas, pressão por resultados e multiplicidade de
papéis, como tutoria, contenção psicossocial e gestão de conflitos. A evidência mostra
que o aumento sustentado de demandas sem compensação em recursos eleva o
esgotamento e reduz o bem-estar, especialmente quando se combina com ambiguidade
de papéis e exigências emocionais (Kyriacou, 2001; Travers, 2017). A partir do JD-R,
essas demandas são preditores consistentes de desgaste, enquanto a provisão de recursos,
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como tempo, materiais e apoio técnico, atua como amortecedor (Hakanen et al., 2006;
Bakker & Demerouti, 2017).
O apoio social e a liderança escolar aparecem como protetores críticos. A literatura
revisada indica que lideranças pedagógicas, próximas e justas associam-se a maior bem-
estar, ao gerar confiança, reconhecimento e clareza organizacional, reduzindo conflito e
isolamento profissional (Leithwood & Jantzi, 2006; Johnson et al., 2012). Do mesmo
modo, comunidades docentes colaborativas, com trabalho entre pares, mentoring e
planejamento, favorecem pertencimento e aprendizagem profissional, o que aumenta
bem-estar e engagement (Vescio, Ross & Adams, 2008; Hargreaves, 2000).
A autonomia institucional e a participação docente nas decisões também influenciam
significativamente. Quando o docente tem margem para adaptar metodologias, avaliar
com critérios formativos e construir projetos com sentido, aumenta a motivação
autodeterminada e o bem-estar; quando são impostos controles rígidos e burocráticos,
aumentam a frustração e o mal-estar (Ryan & Deci, 2000; Pearson & Moomaw, 2005).
Nessa linha, a revisão identifica como relevante a percepção de justiça organizacional e
reconhecimento profissional, que sua ausência vincula-se a desafeição laboral e
desgaste (Skaalvik & Skaalvik, 2017; Collie et al., 2012).
Em contextos latino-americanos, sublinha-se a influência de condições estruturais como
precarização contratual, déficit de infraestrutura e desigualdade social, que aumentam a
carga emocional do professorado e dificultam a gestão da sala de aula. A evidência sugere
que ensinar em ambientes de alta vulnerabilidade expõe os docentes a maior estresse e
demandas de contenção, razão pela qual políticas de apoio psicossocial e recursos
escolares o determinantes para proteger o bem-estar (Vaillant & Rossel, 2006; Tenti
Fanfani, 2008). Em síntese, os fatores institucionais não apenas “explicam” o bem-estar,
mas marcam a diferença entre trajetórias docentes sustentáveis e trajetórias de desgaste
crônico (OECD, 2020; UNESCO, 2021).
Problemáticas vinculadas ao estresse laboral e ao burnout
Destaca-se como problemática transversal o estresse laboral docente, compreendido
como resposta psicológica diante de demandas percebidas como excessivas ou difíceis de
manejar. A docência combina carga cognitiva, como planejamento e avaliação, carga
emocional, como manejo de conflitos e apoio aos estudantes, e pressão institucional,
como prestação de contas, o que eleva o risco de estresse crônico se não houver recursos
suficientes (Kyriacou, 2001; Travers, 2017). A partir do modelo transacional, o estresse
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surge quando o docente avalia que as demandas superam seus recursos, o que varia
segundo autoeficácia, apoio social e contexto organizacional (Lazarus & Folkman, 1984;
Klassen & Chiu, 2010).
O burnout aparece como consequência relevante do estresse sustentado, caracterizado por
esgotamento emocional, despersonalização/cinismo e baixa realização pessoal. A
evidência revisada mostra que o burnout docente associa-se à deterioração do bem-estar,
à menor qualidade pedagógica, a conflitos interpessoais, absenteísmo e maior intenção de
abandono profissional (Maslach et al., 2001; Schaufeli & Taris, 2014). No marco do JD-
R, o burnout emerge quando altas demandas se mantêm ao longo do tempo sem recursos
compensatórios, particularmente quando o docente carece de apoio, autonomia e
reconhecimento (Bakker & Demerouti, 2017; Hakanen et al., 2006).
Entre os estressores mais relatados incluem-se a indisciplina escolar, a pressão por
resultados, a burocracia, a falta de tempo e a dificuldade para atender à diversidade e às
necessidades educacionais com recursos limitados. A literatura descreve que essas
condições aumentam o esgotamento, reduzem a satisfação laboral e perdem o senso de
eficácia, gerando climas de tensão que também afetam os estudantes (Kyriacou, 2001;
Jennings & Greenberg, 2009). Além disso, o “trabalho emocional” docente pode conduzir
à fadiga empática e ao cinismo quando não existem espaços institucionais de cuidado,
supervisão ou apoio psicossocial (Hargreaves, 2000; Gross, 1998).
Um resultado relevante é a associação entre burnout e variáveis de saúde mental como
ansiedade, sintomas depressivos e transtornos do sono, embora os estudos enfatizem que
essas relações costumam ser mediadas por condições laborais e recursos pessoais. Em
particular, contextos de insegurança laboral e sobrecarga sustentada aumentam a
vulnerabilidade, enquanto apoio social, autoeficácia e estratégias de enfrentamento
adaptativas reduzem o risco (Maslach et al., 2001; Hobfoll et al., 2018). Desse modo, a
problemática não pode ser tratada apenas com intervenções individuais, mas com
estratégias organizacionais que reduzam demandas excessivas e fortaleçam recursos
institucionais (OECD, 2020; UNESCO, 2021).
Implicações do bem-estar psicológico para a prática e a qualidade educacionais
Os estudos revisados mostram que o bem-estar psicológico docente tem implicações
diretas sobre a qualidade do ensino, o clima da sala de aula e a relação pedagógica,
atuando como condição de possibilidade para práticas sustentáveis e efetivas. Docentes
com maior bem-estar tendem a manter maior paciência, flexibilidade didática e
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sensibilidade pedagógica, favorecendo interações positivas e ambientes emocionalmente
seguros para a aprendizagem (Jennings & Greenberg, 2009; Hargreaves, 2000). Em
contraste, o mal-estar e o esgotamento associam-se a respostas mais reativas, menor
disponibilidade emocional e menor qualidade de retroalimentação, o que pode afetar a
motivação e a participação estudantil (Maslach et al., 2001; Schaufeli & Taris, 2014).
A partir de enfoques motivacionais, observa-se que o bem-estar vincula-se a maior
motivação autodeterminada e engagement docente, o que favorece inovação, persistência
e compromisso institucional. A satisfação de autonomia, competência e relação fortalece
o envolvimento profissional e traduz-se em práticas mais centradas no estudante, com
maior apoio e mediação pedagógica (Ryan & Deci, 2000; Deci & Ryan, 2008). Em termos
organizacionais, o bem-estar docente também se associa a menor rotatividade e maior
estabilidade da equipe educativa, o que beneficia a continuidade pedagógica e a cultura
escolar (Skaalvik & Skaalvik, 2017; OECD, 2020).
A revisão também evidencia que o bem-estar do professorado influencia o clima escolar
e a construção de comunidades profissionais de aprendizagem. Docentes com maior bem-
estar tendem a participar mais de colaboração, mentoring e trabalho colegiado,
fortalecendo processos de melhoria institucional e aprendizagem organizacional (Vescio
et al., 2008; Johnson et al., 2012). A partir de modelos socioemocionais, o bem-estar
docente contribui para uma melhor regulação emocional em sala de aula e para vínculos
mais positivos, o que impacta a convivência e a prevenção de conflitos (Gross, 1998;
Brackett et al., 2010).
Os achados sugerem que promover o bem-estar psicológico docente deve ser considerado
uma estratégia de política educacional e não um assunto secundário. Organismos
internacionais têm enfatizado que o cuidado com o professorado é fundamental para
sustentar sistemas educativos de qualidade, especialmente em cenários de crise e
desigualdade (UNESCO, 2021; OECD, 2020). Em suma, o bem-estar docente opera
como variável “ponte entre condições laborais, práticas pedagógicas e resultados
educativos, o que justifica intervenções multinível: formação sócio emocional, liderança
de apoio, redução de sobrecarga e criação de culturas escolares de cuidado (Bakker &
Demerouti, 2017; Jennings & Greenberg, 2009).
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Tabela 1: Síntese dos principais achados
CATEGORIAS DE
ANÁLISE
EIXOS
CONCEITUAIS
PREDOMINANTES
PRINCIPAIS ACHADOS
DA LITERATURA
AUTORES DE
REFERÊNCIA
1.
Conceitualização
do bem-estar
psicológico em
docentes
Enfoque
eudaimônico; bem-
estar
multidimensional;
desenvolvimento
pessoal e
profissional
O bem-estar psicológico
docente é conceitualizado
como um construto
dinâmico e
multidimensional,
vinculado ao
funcionamento ótimo e ao
sentido do trabalho
educativo, superando a
mera ausência de mal-estar.
Ryff (1989);
Ryff & Keyes
(1995); Keyes
(2002); Day
(2004);
Hargreaves
(2000)
2. Modelos
teóricos utilizados
para o estudo do
bem-estar
psicológico
docente
Modelo
eudaimônico; teoria
da
autodeterminação;
modelo JD-R; teoria
da conservação de
recursos
Predominam modelos
integradores que explicam o
bem-estar como equilíbrio
entre demandas laborais e
recursos pessoais e
institucionais, combinando
propósito (Ryff), satisfação
de necessidades
psicológicas (TAD) e
estrutura organizacional
(JD-R/COR).
Ryan & Deci
(2000); Deci &
Ryan (2008);
Bakker &
Demerouti
(2017); Hobfoll
(1989);
Schaufeli &
Taris (2014)
3. Fatores
individuais
associados ao
bem-estar
psicológico
docente
Autoeficácia;
resiliência;
regulação
emocional;
enfrentamento;
sentido vocacional
Recursos pessoais como
autoeficácia, resiliência e
estratégias de
enfrentamento adaptativas
atuam como fatores
protetores frente ao
estresse, especialmente em
contextos de alta exigência.
Bandura
(1997);
Tschannen-
Moran & Hoy
(2001);
Beltman et al.
(2011); Lazarus
& Folkman
(1984); Day &
Gu (2014);
Zhou et al.
(2024)
4. Fatores
contextuais e
institucionais que
influenciam o
bem-estar
Clima escolar;
liderança; apoio
social; autonomia;
condições laborais
O contexto organizacional é
determinante: sobrecarga,
burocratização e
precarização afetam
negativamente o bem-estar,
enquanto liderança de
apoio, autonomia
pedagógica e
reconhecimento
profissional atuam como
protetores.
Kyriacou
(2001);
Johnson et al.
(2012);
Skaalvik &
Skaalvik
(2017);
Vaillant &
Rossel (2006);
OECD (2020)
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CATEGORIAS DE
ANÁLISE
EIXOS
CONCEITUAIS
PREDOMINANTES
PRINCIPAIS ACHADOS
DA LITERATURA
AUTORES DE
REFERÊNCIA
5. Problemáticas
vinculadas ao
estresse laboral e
ao burnout
Estresse crônico;
esgotamento
emocional;
despersonalização;
baixa realização
pessoal
O estresse sustentado sem
recursos suficientes é o
principal antecedente do
burnout, associando-se a
problemas de saúde mental
e ao abandono da profissão.
Maslach et al.
(2001);
Kyriacou
(2001); Travers
(2017);
Hakanen et al.
(2006); Hobfoll
et al. (2018);
Ozamiz-
Etxebarria et al.
(2023)
6. Implicações do
bem-estar
psicológico para a
prática e a
qualidade
educacionais
Clima de sala de
aula; engagement
docente; relações
pedagógicas;
qualidade
educacional
Maior bem-estar docente
associa-se à maior
compromisso, melhores
relações pedagógicas e
práticas mais inovadoras,
reforçando a qualidade do
sistema educacional.
Jennings &
Greenberg
(2009); Ryan &
Deci (2000);
Vescio et al.
(2008);
UNESCO
(2021); OECD
(2020)
Fonte: Elaboração própria.
CONCLUSÕES
A presente revisão narrativa permitiu analisar e sistematizar a produção científica sobre
o bem-estar psicológico em docentes combinando estudos recentes e referências
teóricas fundacionais da área , evidenciando que se trata de um construto complexo,
multidimensional e de alta relevância para a sustentabilidade da profissão docente e a
qualidade dos sistemas educativos. A literatura revisada mostra um claro predomínio do
enfoque eudaimônico proposto por Ryff, especialmente pertinente para o âmbito
educacional ao enfatizar propósito de vida, crescimento pessoal, auto aceitação e relações
positivas elementos ligados à identidade e à vocação docente , e é explicada de
forma mais robusta quando integrada a enfoques motivacionais (teoria da
autodeterminação) e ocupacionais (modelo de demandas e recursos de trabalho e teoria
da conservação de recursos) (Ryff, 1989; Ryff & Keyes, 1995; Day, 2004; Ryan & Deci,
2000; Deci & Ryan, 2008; Bakker & Demerouti, 2017; Hobfoll et al., 2018).
Entre os fatores individuais, a autoeficácia docente, a resiliência, a regulação emocional
e o sentido vocacional desempenham um papel fundamental como protetores frente ao
estresse laboral (Bandura, 1997; Beltman, Mansfield & Price, 2011; Day & Gu, 2014),
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mas não são suficientes por si sós: o clima escolar, a liderança educacional, o apoio social,
a autonomia pedagógica e as condições de trabalho constituem determinantes igualmente
decisivos do bem-estar docente (Johnson et al., 2012; Skaalvik & Skaalvik, 2017). Essas
condições estruturais se agravam em contextos de desigualdade social e escassez de
recursos, como ocorre em numerosos sistemas educativos da América Latina (Vaillant &
Rossel, 2006; Tenti Fanfani, 2008), o que reforça que o bem-estar psicológico docente
deve ser abordado como responsabilidade organizacional e sistêmica, e não apenas como
desafio individual.
O estresse laboral sustentado e o burnout caracterizado por esgotamento emocional,
despersonalização e baixa realização pessoal constituem uma das principais ameaças
ao bem-estar psicológico docente, com implicações diretas sobre a qualidade do ensino,
o clima escolar e a permanência na profissão (Maslach, Schaufeli & Leiter, 2001;
Schaufeli & Taris, 2014; Jennings & Greenberg, 2009). Por isso, organismos
internacionais têm assinalado o cuidado com a saúde mental do professorado como
componente essencial da sustentabilidade educacional, o que justifica políticas que
integrem prevenção, promoção e acompanhamento psicossocial como eixo transversal
(OECD, 2020; UNESCO, 2021).
Como limitação, esta revisão tem caráter narrativo: não apresenta uma quantificação
exaustiva das fontes avaliadas nem uma tabela individualizada dos estudos consultados,
e a literatura disponível segue concentrada em contextos anglo-saxões, com escassez de
pesquisas contextualizadas em países em desenvolvimento o que reforça a necessidade
de ampliar a produção científica sobre bem-estar psicológico docente em contextos
latino-americanos (Vaillant & Rossel, 2006). Para a pesquisa futura, recomenda-se
avançar em estudos longitudinais sobre a evolução do bem-estar ao longo da carreira
docente, em pesquisas mistas que integrem enfoques quantitativos e qualitativos, e em
avaliações do impacto de intervenções institucionais sobre a prática educativa e os
resultados escolares (Snyder, 2019; Bakker & Demerouti, 2017).
No plano prático, as instituições educativas deveriam desenvolver estratégias integrais
para o cuidado do bem-estar psicológico do professorado formação sócio emocional,
espaços de apoio e reflexão profissional, fortalecimento da liderança pedagógica e
culturas escolares colaborativas a partir de uma perspectiva preventiva e promocional
(Jennings & Greenberg, 2009; Day & Gu, 2014). Fortalecer o bem-estar psicológico
docente não constitui apenas uma obrigação ética, mas também um investimento
estratégico para garantir uma educação de qualidade, equitativa e sustentável.
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